O dia que enterrei a minha filha

Talvez hoje seja um dia comum pra você. O dia em que você acordou ansiosa porque vai apresentar um novo projeto no trabalho. Ou acordou hesitante porque vai viajar sozinha pra fora do país pra fazer um curso de línguas. Pode ser que hoje você tenha acordado acreditando que tudo daria certo e que valia a pena viver, já que pra você, a vida é bonita. Hoje eu não acordei porque eu não dormi. Esperei o dia clarear e fui direto ao cemitério enterrar minha filha. Ela, como tantas outras mulheres, foi morta pelo ex-namorado. Degolada. Minha filha foi morta por um namorado que a deixava com marcas roxas na pele diariamente. Quantas vezes eu ouvi ela dizer que tinha caído na rua? Que os roxos eram simplesmente um esbarrão que ela tinha dado na porta? Pra você, hoje pode ser um dia comum, mas, pra mim, não. É o dia em que eu enterro a pessoa que nasceu de mim. O dia eu que eu enterro ela e junto com ela todos os seus sonhos. Ela sempre dizia: “mãe, um dia vou ganhar dinheiro suficiente pra gente comprar a nossa casa e ficar livre do meu pai e do meu namorado. A gente vai se libertar.” Que pena que a sua libertação veio apenas com a sua morte, filha. Uma morte precoce, uma morte que pode ser insignificante diante da quantidade de mulheres que morrem por dia na mão de canalhas criminosos, mas que contribui pra estatística absurda de mulheres mortas por companheiros ou ex-companheiros. A minha filha entrou pra estatística. E o verme entrou pra estatística dos homens que mesmo matando mulheres, circulam tranquilamente pelas ruas, transitam por grupos sociais, trabalham e ganham dinheiro. Muito dinheiro. São admirados. Homens que matam mulheres, que estupram mulheres, que assediam mulheres, que batem em mulheres, que mutilam mulheres, que encarceram mulheres, que vendem mulheres. Livres. Rindo. Fodendo a vida de outras mulheres. Rindo e fodendo. Rindo, fodendo, gozando e matando. A mulher não morre só quando a matam. Ela morre, diariamente, pouco a pouco, quando homens miseráveis se apropriam de seus corpos, mentes e espíritos. 

Infelizmente o inquérito policial foi arquivado e não tenho forças pra pedir ajuda. Disseram que não existe prova o suficiente para prender o assassino da minha filha. Sinto muito, filha. 

Queria dizer pra minha filha que vou honrar a sua vida e a sua luta. Hoje, estou indo morar com a tia dela, numa cidade muito, muito pequena. Eu não vou levar nada, mas não tem problema. Só de acordar pela manhã e poder ir lavar o rosto ao invés de ser forçada a fazer um sexo sujo só porque sou sustentada financeiramente, já valeu a pena estar viva. O que vai ser de mim nesse mundo eu não sei. Mas uma coisa eu sei: estarei livre, pelo menos até o momento em que ele me encontrar. E Deus queira que esse dia nunca chegue. 

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